Sob ou sobre? A confusão se generaliza. É cada vez mais frequente falantes e escritores usarem uma preposição em lugar de outra. Na ocorrência de tragédias, o troca-troca ganha vulto. É o caso da queda dos três edifícios no centro do Rio. "Buscam-se pessoas sobre os escombros", diziam bombeiros, policiais & cia. ilimitada.
Nada feito. Sobre indica posição superior, em cima de. Sob, inferior, embaixo de: Pôs os documentos sobre a mesa. Buscam-se pessoas sob os escombros. Escondeu o dinheiro sob o tapete. Trabalha sob as ordens do comandante. Havia corpos sob pedras e barro.
Vai formar palavras com sobre? Abra os olhos. Com o hífen, todo cuidado é pouco. A dissílaba pede o tracinho quando seguida de h (sobre-humano) e e - pra evitar o encontro de duas letras iguais (sobre-escada, sobre-esforço). No mais, é tudo colado (sobressair, sobrealimentado, sobreimposto).
Mais olhos
Sub tem regras comuns e uma diferente. Pede o tracinho quando seguido de h (sub-história, sub-herói) e b - para evitar o encontro de letras iguais (sub-base, sub-bloco). A fim de respeitar a pronúncia, o sub fica longe do r (sub-raça, sub-reptício). Nos demais casos, é tudo junto (subsolo, subsístema, subalterno).
Virgem Maria! De repente, não mais que de repente, edifício de 30 andares desabou. No caminho, derrubou mais dois. Em minutos, os três viraram toneladas de escombros e nuvem de poeira. Os prédios eram comerciais. Sorte. Às oito e meia da noite, a maior parte dos empregados tinha saído. Ficaram os que faziam hora extra.
A tragédia desenterrou um verbo pra lá de ardiloso. Trata-se de ruir. Como conjugá-lo? Ruir joga no time dos preguiçosos. Boa-vida, o defectivo não tem todas as pessoas, tempos e modos. Ruir, por exemplo, só se flexiona nas formas em que o e ou o i seguem o u. Assim: rui, ruem, ruiu, ruía, ruiria, ruirá, ruindo.
O desabamento trouxe à tona dois outros verbos. Um deles: construir. O outro: destruir. A terceira pessoa do singular do presente do indicativo deu nó na cabeça de adultos e crianças. A questão: destrói e constrói mantêm o acento?
A dúvida pintou por causa da reforma ortográfica. Ela cassou o grampinho do ditongo aberto oi. Mas...eis a cilada. Só as paroxítonas perderam o acento. É o caso de heroico, joia, paranoico. As oxítonas saíram ilesas. Sem um arranhão sequer, conservam o acento firme e forte. Constrói e destrói servem de exemplo. Niterói, herói, lençóis & cia. lhes fazem companhia.
Ao saber da tragédia, o prefeito do Rio não pensou duas vezes. Dirigiu-se ao local do desabamente. Lá, claro, foi entrevistado. Com voz triste, ele disse que espera não haver muitas "vítimas fatais". O exemplo, diz o outro, vem do alto. Repórteres, diante de câmeras e microfones, repetiram a dupla. Era vítima fatal pra lá, vítima fatal para cá.
Esqueceram-se de pormenor pra lá de importante. Fatal é o que mata. O acidente mata. É fatal. A vítima, coitada, não mata ninguém. Morre. Melhor torcer para que haja poucos mortos. Ou poucas perdas de vida.
Tânia pergunta
Quanto à propriedade vocabular, quero encontrar verbos específicos. Por exemplo, gostaria de descobrir verbos que substituam o assistir e o ver. Sou cinéfila, então, sempre que posto alguma impressão no Twitter, uso um ou outro. Estou cansada deles. Pode me sugerir outras opções?
Que tal recorrer a verbos opinativos? É o caso de gostar, adorar, detestar, odiar, decepcionar, surpreender. Eles dão um passo adiante em relação a assistir e ver. Você só pode adorar ou detestar um filme se o tiver visto.
Que ou o qual?
Depende. Cada macaco tem o seu galho. Passar pro do outro é arriscado. Pode matar amores, retardar promoções e adiar a entrada na universidade. Já imaginou? Diante do risco, o bom-senso fala alto. Aconselha entender o emprego dos dois. Desvendado o mistério, fica uma certeza. É acertar ou acertar.
Qual o seu domínio do assunto? Para avaliar a quantas você anda, faça o teste. Marque com V, de verdadeiro, se a frase merecer nota dez. E F, de falso, se não estiver com nada.
( ) O livro o qual li na semana passada esgotou-se em dois meses.
( ) Gostei da camisa a qual você comprou em Nova Iorque.
( ) Recebeu aplausos do público perante o qual falou na semana passada.
( ) O professor sobre o qual lhe falei trabalha em duas universidades.
E daí? Faça a sua aposta.
O pronome o qual soa artificial nos dois primeiros períodos. Ao falar, dizemos:
O livro que li na semana passada esgotou-se em dois meses.
Gostei da camisa que você comprou em Nova Iorque.
O o qual tem vez quando antecedido de preposição com duas sílabas ou mais. É o caso dos dois exemplos:
Recebeu aplausos do público perante o qual falou na semana passada.
O professor sobre o qual lhe falei trabalha em duas universidades.
Ficou claro? Tomara.
Outro dia, uma questão fez furor entre concursandos. Trata-se do emprego dos porquês.
As opções deram nó nos miolos da moçada. Todas pareciam certas. E, ao mesmo tempo, geravam a maior confusão. Eis o quebra-cabeça. Das quatro propostas, só uma merece nota 10. Qual?
a. Não há porque temer os porquês. Sabe por que? Quem estudou o porquê dos porquês sabe porquê.
b. Não há por que temer os porques. Sabe por quê? Quem estudou o porque dos porques sabe porque.
c. Não há por que temer os porquês. Sabe por quê? Quem estudou o porquê dos porquês sabe por quê.
d. Não há porque temer os porques. Sabe por quê? Quem estudou o porque dos porques sabe por quê.
E daí? Faça a sua aposta.
Marcou a letra c? Acertou. Por quê? Eis os porquês:
1. O primeiro porquê é substituível por "a razão pela qual". Daí escrever-se separado.
2. O segunfo porquê é substantivo. O plural serve de prova. O artigo que o antecede também.
Grafa-se sempre colado com acento.
3. O terceiro porquê aparece em pergunta direta (daí ser separado). Está no fim da linha. Por isso pede acento.
4. O quarto e o quinto jogam no time do terceiro.
5. O último pertence à gangue do primeiro. Ganha acento porque aparece no fim do período, encostadinho no ponto.
Deu pra entender a manha dos porquês?
Duvanier Paiva Ferreira era secretário de Recursos Humanos do Ministério do Planejamento.
Sentiu-se mal. Fez o que tinha de fazer. Procurou um hospital particular. Depois, outro. Ambos lhe negaram socorro por não aceitarem o plano de saúde do servidor. Ao chegar a terceira unidade, era tarde demais. Estava sem vida. O papelão ganhou manchetes em jornais, rádios e tevês. Ao narrar a tragédia, alguns falavam em "atender o paciente". Outros, "atender ao paciente". E daí? Na acepção de prestar atendimento, atender pode ser transitivo direto ou indireto: O médico atendeu o enfermo. O médico atendeu ao enfermo.
Começou o Fórum Social Temático em Porto Alegre. Quarenta mil pessoas chegam dos quatro cantos do mundo. A capital gaúcha os recebe com a faixa "Bem vindos ao Fórum social Temático". A mensagem maltrata a língua. Que feio! Que tal pedir desculpas? Basta escrever bem-vindos assim, com hífen.
Chegou uma família. Depois outra. Mais outra. As instaladas atraíram outras. Mais outras. Mais outras. A invasão virou Pinheirinho, bairro de São José dos Campos. Alguns dizem que ali viviam 6 mil pessoas. Há quem fale em 9 mil. Ordem judicial mandou expulsá-los. Assim foi feito.
O espetáculo de derrubada dos barracos foi triste. Tratores não passavam só por cima de casas, móveis e eletrodomésticos. Passavam sobre a vida de pessoas desesperadas. De uma hora para outra, elas viraram sem-teto, sem-esperança, sem-tudo.
Reparou? Ao formar substantivos ou adjetivos, o sem pede hífen. É o caso de sem-terra, sem-teto, sem-banco, sem-emprego. Fora isso, o sem se grafa como as demais preposições: Saiu sem pedir licença. Sem dinheiro, nada de compras. Atirou sem intenção de matar.
Morador da casa do BBB bobeou. Sem ligar pras câmeras, Daniel dirigiu-se à cama da colega bêbada. Não deu outra. Ela o acusou de estupro. Ele negou. Pelo sim, pelo não, caiu fora do programa. A baixaria levantou duas questões. Uma: a grafia de estupro. O ato violento se escreve assim mesmo. Não vale trocar as sílabas de lugar.
A outra: a diferença entre espiar e expiar. A dupla se pronuncia do mesmo jeitinho. Mas uma letra faz a diferença. Espiar, com s, pertence à família de espião. Quer dizer espionar (os indiscretos espiam pela fechadura). Expiar, com x, é parente de expiação. Significa pagar, padecer, sofrer, purgar: Precisou de muitas preces para expiar os malfeitos. O sangue dos mártires expiou os pecados dos cristãos.
Rita Lee completou 67 anos. Em plena forma, anunciou que vai abandonar os palcos. Sente-se cansada. Além disso, o corpo ficou teimoso. Não obedece às ordens que lhe dá. A decisão ganhou as primeiras páginas dos jornais. Algumas foram sovinas que só. Escreveram "A roqueira despede". Curiosos, leitores perguntaram: "Despede quem?"
Ops! Eles puseram o dedo na ferida. Despedir é verbo transitivo direto. Despede-se alguém. Pode ser o empregado, a cozinheira, o amigo que parte. No caso, Rita Lee despede a si mesma. Por o sujeito praticar e sofrer a ação, o verbo se torna pronominal: eu me despeço, ela se despede, nós nos despedimos, eles se despedem.
Resumo da opereta: a roqueira se despede sim, senhor. Adeus!
Mesmo barco
Rita se despede dos palcos. Mas não se aposenta. Continuará a gravar com a mesma regularidade.
Reparou? Aposentar embarca na mesma canoa de despedir. Pra não entrar em embarcação furada, atenção ao sujeito. Ele pratica e sofre a ação? Então o verbo é pronominal: O INSS aposenta o servidor. O servidor se aposenta. Eu me aposento. Nós nos aposentamos. Eles se aposentam. Rita não se aposenta da carreira.
Machado de Assis, Eça de Queirós e Graciliano Ramos, José Saramago, Jorge Amado (in memoriam), Lígia Fagundes Telles, Millôr Fernandes, Roberto Pompeu de Toledo, Elio Gaspari, Luís Turiba, Sebastião Nery e todos os cultores da boa linguagem cumprem o doloroso dever de comunicar o falecimento do futuro do subjuntivo.
Vítima de abandono e maus-tratos, ele deixa a família verbal enlutada. Os amigos se unem nesse ato de piedade cultural e protestam contra tão prematura e insubstituível partida.
Não há escapatória, Se correr, o bicho pega. Se ficar, o bicho come. Os jornais esnobam essa forma verbal há algum tempo. A TV provoca um arrepio depois do outro. Os charmosos apresentadores dizem com a maior sem-cerimônia "quando ele pôr, se ele ver, assim que ele reter".
Os produzidos personagens das novelas não ficam atrás. Erram todas. O futuro do subjuntivo está lá, confundido com o infinitivo.
"Afinal, o que aconteceu?", perguntam os amigos. "Uma grande confusão", reconhecem. O futuro morreu da insidiosa moléstia chamada semelhança.
O azar desse tempo, que, frise-se, sempre cumpriu suas obrigações a tempo e a hora, foi um só:
ser parecido com o infinitivo (a forma que dá nome ao verbo: cantar, vender, partir). Os simplistas acham que ele é o filho do infinitivo (quando eu chegar, você chegar, nós chegarmos, eles chegarem). Mas o pai dele é outro. Não muito conhecido, mas o exame do DNA é categórico.
Está registrado em todas as gramáticas. É o pretérito perfeito do indicativo. Mais precisamente a 3ª pessoa do plural. Sem o -am final.
Quando eu pôr ou puser? Se eu vir ou ver? Se eu vier ou vir? Assim que ele reter ou retiver?
Dúvidas. Dúvidas. Dúvidas. Qual a saída? Só há uma. Recorrer ao pai. Conjugar o verbo no pretérito perfeito, velho conhecido de todos. Depois, fixar-se só na 3ª pessoa do plural. Sem e -am final, temos o filho legítimo. Sem disfarces.
Quando ele pôr ou puser? Pretérito perfeito: eu pus, ele pôs, nós pusemos, eles puser(am).
Futuro do subjuntivo: quando eu puser, você puser, nós pusermos, vocês puserem.
Não há exceção. Que o digam os maltratados.
Se eu vir ou vier? O pai: eu vim, você veio, nós viemos, eles vier(am).
O filho: se eu vier, ele vier, nós viermos, eles vierem.
Assim que nós virmos ou vermos? O primitivo: eu vi, ele viu, nós virmos, eles vir(am).
O derivado: assim que eu vir, ele vir, nós virmos, eles virem.
Se eu reter ou retiver? Sem preguiça, conjuguemos o pretérito perfeito: eu retive, ele reteve, nós retivemos, eles retiver(am).
O futuro do subjuntivo: se eu retiver, ele retiver, nós retivermos, eles retiverem.
Sabe quem está esperneando? É o trazer. Luta com todas as forças para não descer à sepultura.
Não quer ser enterrado na vala comum dos deserdados. "Socorro!", grita. "Trarei muita sorte a quem me salvar". Inútil. Traga o que trouxer, ninguém o escuta. Descanse em paz.
Qual a maneira correta: X exposição ou Xª exposição?
Os algarismos romanos não têm nada a ver com os arábicos. Por isso, esnobam o azinho que os arábicos usam pra indicar o ordinal: X exposição lê-se 10ª exposição. PT saudação.
