O FRIO MORA AQUI
"UI! Estamos no Canadá?", perguntam gaúchos e barrigas-verdes. Com razão. A paisagem amanhece vestida de branco, os lagos congelados, as árvores frias e paradas, imobilizadas da raiz à copa. Os termômetros marcam -3º, mas a sensação térmica é de -15º.
O frio ensina uma lição. Verbos que indicam fenômenos da natureza são impessoais. Como as árvores paralisadas, mantêm-se paradinhos. Só se flexionam na 3ª pessoa do singular.
(Chove. Faz frio. Neva. Troveja. Amanhece. Anoitece.) Um deles adora pregar peças. É fazer. Ele leva o falante descuidado a pensar que está diante de criatura regular, igualzinha à maioria das criaturas do time em que ele joga.
Olho vivo! Na contagem de tempo ou indicação de fenômenos da natureza, fazer é impessoal. Só aparece na 3ª pessoa do singular: Na Região Sul, faz muito frio nesta época do ano. Em Natal, faz 25º. Faz meses que visitei São Joaquim, na serra catarinense. No Distrito Federal, faz dois meses que não chove. Valha-nos, Deus! A seca promete ser braba.
RESPEITO É BOM
Viva! A Receita Federal soltou mais um lote de devolução do nosso rico dinheirinho recolhido sem pena, mês a mês. A bolada é grande. Milhares de contribuintes vão engordar a conta. Para fazer bom uso dos reaizinhos, uma condição se impõe - respeitar o tributo.
Impostos, taxas, contribuições são nomes próprios. Escrevem-se com a inicial maiúscula:
Imposto de Renda (IR), Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), Imposto Predial e Territorial Urbano IPTU), Imposto sobre Serviço (ISS), Taxa do Lixo, Contribuição para Financiamento Social (Cofins).
O DIAGNÓSTICO TEM NOME
Certo ministro adora os prazeres da noite. Bebe, namora, dorme tarde. Acordar no dia seguinte? É um deus nos acuda. Para esconder os olhos vermelhos, vai ao trabalho de óculos escuros. Outro dia, em reunião presidencial, colegas solidários perguntaram o que havia acontecido. Ele deu a resposta de sempre. "Estou com dor nos olhos". "Deve ser conjuntivite", diagnosticou um. Outro, cansado de ouvir a ladainha anos a fio, brincou: "É pleonasmo".
"O que você tem"?, perguntou o presidente ao chegar e dar de cara com a criatura moída de ressaca. O ministro não deixou por menos:
- Uns dizem que é conjuntivite. Outros, pleonasmo.
Por falar em pleonasmo...
"Couve e cenoura mantiveram o mesmo preço da semana passada", informou o telejornal.
Vale a observação: se manteve, só pode ser o mesmo. Se não é o mesmo, o verbo pega a bengala, põe o chapéu e cede o lugar a outro. Mudar se presta ao papel.
CADA MACACO NO SEU GALHO
"Impugnação? É o risco que corre 77% dos candidatos a cargos eletivos", disse uma repórter. "Já está valendo as novas regras eleitorais', explica outra. Pontos comuns? Há dois. Um: ambas esnobaram a sintaxe. O outro: as duas caíram na mesma esparrela. Ela se chama inversão. Se vem depois do verbo, o sujeito perde a visibilidade. Transmite a impressão de que é objeto. Dá no que dá.
A saída? Deixar a preguiça de lado e pôr a frase na ordem direta. Assim: É o risco que 77% dos candidatos correm. As novas regras eleitorais já estão valendo. Na ordem direta ou inversa, o sujeito se mantém. A concordância também - É o risco que correm 77% dos candidatos a cargos eletivos. Já estão valendo as novas regras eleitorais.
É isso. Para vencer a esperteza, esperteza e meia.
Recentemente me apanhei com uma dúvida, digamos, linguística. A manchete do jornal dizia: "Espanha vence Holanda e conquista título inédito". Nada de mais, não é? Só que, de repente, pensei: "Inédito" quer dizer "não editado", ou seja, não noticiado, impresso, divulgado. E nós nos acostumamos a empregar para qualquer fim, até para uma vitória futebolística. Será correto? Haverá outro termo mais apropriado? Diga-me, por favor, se souber de algum. Ou então me corrija, se inédito já estiver consagrado para uso com outras acepções.
"Quem fica parado é poste", diz o povo sabido. As palavras confirmam o dito. Irrequietas, transpõem fronteiras, adotam outras nacionalidades, mudam de classe e de significado como Deborah Secco muda de marido. Inédito não foge à regra. Nasceu latino. Na língua dos Césares, queria dizer não impresso, não publicado. Mas o danado cresceu e apareceu.
Por extensão, passou a ter a acepção de original, sem precedentes, que nunca foi visto. É o caso do título da Espanha.
NOVIDADE NA VELHA NOVA NOVELA DAS SETE
Na vida nada se cria. Tudo se recria. Ou se copia. Ou se recicla. A nova novela da Globo serve de exemplo. Os mais vividos se lembram do folhetim de Cassiano Gabus Mendes que foi ao ar lá por 1985. A história dos costureiros rivais volta reescrita por Maria Adelaide Amaral e interpretada por atores da moda. Entre eles, Alexandre Borges, Murilo Benício e Cláudia Raia.
O nome se mantém. Mas a grafia muda. Antes da reforma ortográfica, tititi se escrevia assim - tudo junto. Agora exibe hífen. Virou ti-ti-ti. Por quê? Ganharam tracinho os compostos formados com elementos repetidos de formas onomatopeicas que mantêm o acento. É o caso de blá-blá-blá, zum-zum, cri-cri, reco-reco, tique-taque, zigue-zague, zigue-zigue.
PALAVRAS SONORAS
Onomatopeia? O que é isso? O dicionário responde. Palavra cuja pronúncia imita o som natural da coisa significada. Exemplos? Há montões. Au-au, late o cão. Miau-miau, geme o gato. Tique-taque, alerta o relógio. Toque-toque, bate o visitante com pressa de entrar.
Mais? Pois não: murmúrio, sussurro, cicio, chiado, mugir, pum, reco-reco, fofoca, trouxe-mouxe.
FILHOTES
O adjetivo derivado de onomatopeia? O danado tem duas formas. Uma: onomatopaico.
A outra: onomatopeico. Reparou? O ditongo aberto ei perdeu o acento. Tal como em ideia, assembleia, epopeia e ateia, em onomatopeia e onomatopeico o grampinho bateu asas e voou. Olho vivo! Ele deu adeus nas oxítonas. Permanece firme e forte nas oxítonas - papéis, cartéis, fiéis.
É PROIBIDO BATER
Palmada na bundinha? Nem pensar. Pai, mãe, avô, avó, tio, tia & cia. ilimitada não podem levantar a mão contra a criança. Se alguém tentar, que se prepare. Vai para o xilindró. A proibição trouxe uma palavra à tona. É tapa. Pintou, então, a dúvida. Em que time joga a dissílaba? Ela é fêmea ou macha? Faça a sua aposta. Feminina? Acertou.
Masculina? Acertou. Tapa é gilete. Corta dos dois lados.
NÃO, OBRIGADO
Coluna da Veja descobriu tropeço no menu eletrônico da Sony do Brasil. No texto, aparece "TV à cabo". Ops! O sinalzinho da crase sobra. Por quê? Cabo é masculino.
Empedernido, não muda de gênero nem sob ameaças da gangue do Bruno. "O grampo", diz ele, "é coisa feminina". Tem razão.
Colunista de certo jornal afirma que "literalmente, ninguém deu bola para a jabulani".
Ficou a dúvida. Dar bola literalmente significa ceder, presentear ou doar uma bola.
Como alguém pode ceder, presentear ou doar uma bola para outra bola? Acho que é possível dar bola para uma bola somente no sentido figurado, que seria dar confiança à bola, dar atenção à bola, importar-se com a bola. Estou correto?
É isso, Márcio. No caso, "dar bola" não tem parentesco nem remoto com doar. Significa, como você deduziu, "dar confiança".
AO REDIGIR UM MEMORANDO, ESCREVI "CHEFE DE GABINETE". UMA COLEGA ME DISSE QUE O CORRETO É "CHEFE-DE-GABINETE". E DAÍ?
O Vocabulário Ortográfico não registra o vocábulo. Mas ele entra na regra do pé de moleque. Três ou mais palavras ligadas por preposição, conjunção ou pronome perdem o tracinho: chefe de divisão, chefe de esquadra, tomara que caia, dor de cotovelo, mula sem cabeça.
Exceção? Se a palavra designa seres do mundo animal ou vegetal, mantém o hífen: castanha-do-pará, pimenta-do-reino, cana-de-açúcar, bicho-do-pé, joão-de-barro. E por aí vai.
VÍTIMA FATAL
Trata-se de uma impropriedade muito comum aos meios de comunicação, especialmente no noticiário de acidentes, em exemplos, como: O acidente deixou cinco feridos e duas vítimas fatais.
Fatal significa mortífero, que causa a morte, que traz ruína ou desgraça.
Não existe vítima fatal. O acidente é que é fatal. Fatal é o que causa a morte: acidente fatal, tiro fatal, choque fatal, queda fatal, ...
Portanto, fatal é um acidente, um tiro, uma facada, uma batida, uma queda, uma colisão, uma pancada, um golpe. E nunca a vítima, que recebe a morte e não a produz.
