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Governança Empresarial Familiar

A empresa familiar e o compartilhamento do conhecimento tácito como vantagem competitiva

A empresa familiar tem posição de destaque na economia global, mas na sucessão de uma geração para a próxima, a família e a empresa sempre enfrentam momentos críticos

           Em todo processo de sucessão empresarial familiar, constituem preocupações ímpares a seleção do sucessor e o compartilhamento do conhecimento, em especial do tácito, entre o antecessor e o sucessor escolhido, de forma que a empresa não só se perenize, como e, principalmente, não haja descontinuidade e nem grandes conflitos na família  e, por fim, que ela se desenvolva e galgue patamares superiores de gestão, mercado e resultados.

            A partir da análise sistemática e integrativa da literatura, bem como de entrevistas conjuntas entre sucedidos e sucessores de quatro das  maiores indústrias de Jaraguá do Sul-SC, em suas segundas, terceiras ou quartas gerações de comando familiar, e da observação participante deste colunista (empresário em fase de sucessão familiar até o fim de 2018), a sua tese de doutorado, defendida em 22.02.2016, na Universidade Federal de Santa Catarina, com período sabático na Hochschule RheiMain Wiesbaden (Alemanha), identificou a complexidade e as diretrizes, assim como levantou formas e melhores práticas de compartilhamento do conhecimento tácito sucedido-sucessor, desenvolvidas e aplicadas, durante o processo de sucessão da gestão empresarial, com ênfase aos fatores críticos de sucesso, incluindo as barreiras e os facilitadores evidenciados na pesquisa de campo (vide http://btd.egc.ufsc.br/wp-content/uploads/2016/08/Em%C3%ADlio-da-Silva.pdf).

O conhecimento tácito de uma pessoa é aquele íntimo, procedural e de difícil formalização ou expressão sob a forma de palavras ou números e, portanto, difícil de ser comunicado a outros. Sua origem é a experiência e a ação e depende muito dos ideais, valores e emoções de cada pessoa.

No caso de uma família empresária, grande parte de seu conhecimento tácito está ligado ao que se chama tradição, por intermédio da qual, a família utiliza, armazena e transmite o conhecimento acumulado.

            A partir dos padrões culturais da tradição, herdados, a família empresária valida estes padrões e os transforma cognitivamente em crenças, que se tornam parte do seu conhecimento tácito, assumido como norte pelo seus membros. Assim, a família torna a tradição uma ferramenta interligada e incorporada ao contexto família-empresa.

            Ao contrário de empresas não familiares, onde o conhecimento tácito  sofre, muitas vezes, baixa valoração, por parecer não dotado de lógica e racionalidade, ele é muito apreciado em empresas familiares, onde – muitas vezes – a velha geração construiu o conhecimento, agindo no dia-a-dia, experimentando, errando, repetindo e corrigindo.

            Nas empresas familiares, os membros, vivendo da mesma fonte (a empresa), tendem a compartilhar os mesmos objetivos e sonhos, havendo um elo de confiança que mantém a dualidade empresa-família, o que resulta numa relação pessoal mais intensa (íntima). Esta confiabilidade facilita e permeia o compartilhamento do conhecimento tácito por todo o contexto familiar-empresarial, de forma interativa, com a incorporação das diferentes capacidades pessoais. Ademais, um dos princípios da comunicação humana é que a transferência de ideias ocorre mais frequentemente entre uma fonte e um receptor, quando ambos são iguais, semelhantes ou da mesma origem, com um sistema comum de significados (linguagem, palavras, expressões ou linguagem corporal).

            O desempenho não econômico, para empresas familiares, como, por exemplo, reputação e identidade, é considerado parte importante do sucesso do empreendimento, uma vantagem competitiva, e esta depende das competências relacionais entre os familiares, sob a forma de harmonia familiar e profissional, estreitas relações interpessoais, satisfação geral da família, enfim, compartilhamento tácito da cultura, valores e princípios familiares.

            O contexto da empresa familiar facilita o compartilhamento do conhecimento tácito, pois privilegia fatores como convivência (tempo), credibilidade (confiança mútua), relacionamento (cumplicidade, parentesco), distância (presença, proximidade) e visão de longo prazo (a família passa, mas a obra permanece). E isto pode significar vantagens competitivas, não  copiáveis (face às particularidades de cada família), tal como estruturas únicas de geração e compartilhamento do conhecimento, relações externas, capacidade de prospecção de oportunidades, adaptabilidade, capacidade de resposta e durabilidade.

            O mais intenso compartilhamento do conhecimento tácito também pode ser considerado importante fator concorrencial das organizações familiares, contribuindo para melhores resultados operacionais e financeiros, porque permite o intercâmbio de ideias que estimulam a criatividade e, em consequência, a inovação, vantagem competitiva altamente valorizada neste mercado em contínua e acelerada mutação.

            Em síntese, o conhecimento tácito tem alta valorização em empresas familiares e seu compartilhamento é muito natural, pois é parte integrante do que se chama tradição e que adquire especial significado quando da sucessão empresarial, sob a égide de um legado intergeracional.

            Enfim, o legado familiar sucedido-sucessor possibilita uma transição na gestão da empresa, que vai muito além da mera trasmissão de poder, já que envolve o compartilhamento de conhecimento tácito – e construção conjunta de novos conhecimentos – entre pessoas bem próximas (íntimas) há muito tempo, reduzindo, assim, e em muito, o risco de descontinuidades, quando da sucessão, no gerenciamento operacional e tático e de rupturas na direção estratégica da empresa.

Emílio Da Silva Neto

Doutor em Engenharia e Gestão do Conhecimento,

Industrial, Consultor, Conselheiro e Professor 

emiliodsneto@gmail.com

Fonte: http://www.jaraguaam.com.br/blogs/governanca-sucesso-na-empresa-familiar/a-empresa-familiar-e-o-compartilhamento-do-conhecimento-tacito-como-vantagem-competitiva

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