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Clássicas da Jaraguá

ÓPERA: Uma experiência muito pessoal

Acompanhe Clássicas da Jaraguá, todos os domingos às 17h na Rádio Jaraguá.

Ouça o programa do dia 14/05/17

O famoso tenor Luciano Pavarotti quando decidiu seguir a carrreira de cantor lírico recebeu o conselho de ser rápido pois a ópera estava morrendo. Apesar da profecia não ter se concretizado e Pavarotti ter desempenhado um papel importantíssimo na popularização do gênero é inegável que a ópera está sempre à beira do precipício. É uma arte cara: exige uma grande produção teatral (cenários, figurinos), uma orquestra de qualidade, excelentes cantores. Tudo isto tem um preço e muitas companhias em dificuldade estão simplesmente fechando as portas. Um exemplo famoso é a Companhia de Ópera da Cidade de Nova Iorque. Em 2013 ela decretou falência e após 70 anos encerrou suas atividades. No ano passado a companhia voltou à atividade mas o futuro continua incerto.

A ópera para mim é uma experiência extremamente pessoal. O meu primeiro contato com ópera ocorreu quando adquiri, por acaso, um disco da cantora lírica Renata Tebaldi. Naquele momento eu não conhecia absolutamente nada sobre o assunto mas fui fisgado pela capa do disco. A foto belíssima retratava Renata no papel de Tosca de Puccini. O que não sabia é que o que estava dentro da capa era muito, muito mais bonito. A voz desta cantora é algo excepcional. É impossível descrever: cabe apenas ouvir e apreciar.

Pouco tempo depois e já achando que sabia muito sobre ópera fiquei indignado com um crítico dizendo que havia uma outra cantora melhor do que Renata Tebaldi: uma tal de Maria Callas. Que absurdo, pensei eu. Com certeza o autor não sabia do que estava falando. Mas mesmo assim, por curiosidade comprei um disco desta cantora. Neste momento uma nova etapa do meu aprendizado começou. Foi com Callas que lentamente conheci o melhor do repertório italiano. Verdade seja dita: não é possível dizer que Callas é melhor do que Tebaldi. As duas são fenomenais. Historicamente Callas tem um papel mais importante pois com ela foi possível reviver vários papéis que há muito aguardavam uma cantora como ela. Tebaldi interpretou menos personagens, geralmente de Verdi e Puccini, mas sempre de forma soberba. Até hoje não existe uma cantora digna de ser considerada sua sucessora.

Na década de 1950 as duas tinham fãs-clubes às vezes agressivos que lembram a rivalidade entre Marlene e Emilinha Borba na era de ouro da radio Nacional. Callas num dos seus momentos de fúria disse que ela era champagne enquanto Tebaldi uma mera Coca Cola. Callas se arrependeu do que disse e anos mais tarde se reconciliou com a concorrente. A verdade é que esta rivalidade, como acontecia no Brasil, era alimentada pelos empresários e gerentes das companhias de ópera pois isto aumentava a bilheteria e a venda de discos.

Outro encontro inusitado com a ópera ocorreu quando comprei num sebo o disco de um antigo tenor italiano cujo nome quase cem anos após sua morte ainda está no imaginário coletivo: Enrico Caruso. O meu interesse inicial não era em si o canto mas sim como soaria uma gravação realizada no início do século 20. À medida que fui ouvindo estas gravações a precariedade da tecnologia com aqueles estalidos irritantes foi ficando em segundo plano e no lugar emergindo o retrato sonoro de um grande artista. A sua interpretação da ária “Vesti la Giubba” (Vista a Fantasia) dos Palhaços de Leoncavallo continua emociando mais de 110 anos depois.

No ensino médio fui morar em Joinville na casa de uma senhora apaixonada por ópera. Será coincidência? A Dona Iris Völker era uma amante da música clássica e tinha uma coleção considerável de discos. Na sala, uma vitrola num belíssimo móvel de madeira reproduzia continuamente os grandes cantores do passado. Ali tive a oportunidade de ouvir pela primeira vez Zinka Milanov e Jussi Björling interpretando a ópera Aida.

Mais tarde comecei a fazer aulas de canto e passei a me interessar por cantores com o mesmo tipo vocal – barítono. Dentre estes, o meu favorito é Tito Gobbi. Ele recebeu o título de a voz que atua e isto é a mais pura verdade.

O programa desta semana é uma pequena homenagem a estes grandes artistas do passado que me mostraram o que a ópera tem de melhor. Vida longa ao canto lírico!

Fonte: http://www.jaraguaam.com.br/blogs/classicas-da-jaragua/opera-uma-experiencia-muito-pessoal

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